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Construindo sonhos...

O Cascateiro

O português Francisco da Silva Reis chegou ao Brasil clandestinamente, depois de realizar, em companhia de outros artistas, inúmeros trabalhos em seu país de origem. Quando esteve de passagem pelo Sul de Minas Gerais, já havia executado importantes obras em palacetes na cidade do Rio de Janeiro, entre coretos, sentinelas, pontes e grutas com belos estalactites e estalagmites. De estatura mediana, magro, tez clara mas ja queimada pelo sol da montanha, trajando muitas vezes calça de algodão, paletó e chapéu de feltro com abas caídas, esse simples mas incansável operário conseguiu erigir, em ambiente adverso de sua origem e longe da família, uma obra extensa e singular. Construtores que o conheceram, recordam com admiração, sua maestria em formular aparências e seu hábito, às vezes incompreendido, de passar horas nas matas, em busca de inspiração. Para Joaquim Antonio, idoso que o auxiliou na construção do Parque das Águas , em Caxambu, ele era um “admirador da natureza”. Segundo Juca Arthur, o artista “ja era um homem de idade quando trabalhou em Cristina” e lhe parecia, aos seus olhos de menino, que o fazedor de cascatas tinha um “rosto cadavérico”.

Em fotografia de 1921, na cidade de Carmo de Minas, frente ao repuxo do jardim público, Francisco da Silva Reis segura um balde de massa na altura do joelho enquanto deixa a mão esquerda no bolso da calça em busca de uma pose mais valorosa. Mesmo nesse momento não se desfez do seu instrumento de trabalho e, humilde como qualquer trabalhador braçal do século XX, entregou-se inocentemente para o obturador da camera fotográfica. Vendo-o em trajes de trabalho, a calça manchada, compreendemos o porquê de tanto esquecimento em torno de sua pessoa. Numa sociedade onde o brilho das palavras, o brilho dos anéis e o brilho negro do café eram as lanternas da vida social, parca consagração restaria a um itinerante construtor de cascatas.


Francisco da Silva Reis era um trabalhador pertinaz, iniciando seu ofício já nas primeiras horas do dia e deixando as ferramentas ao cair da tarde. Como a maioria de suas obras era construída em lugares abertos, ocorria-lhe tirar vantagens das condições climáticas, avaliando a quantidade de argamassa preparada para as modelagens. Suas peças não poderiam ser recolhidas nas mudanças bruscas do tempo. Em caso de chuva (principalmente nos meses de fevereiro e março), não poderia reaproveitá-la. Portanto, era imprescindível que houvesse agilidade na construção, tirando melhor vantagem dos dias ensolarados. Depoimentos colhidos durante as pesquisas confirmam que o artista “ia fazendo sua obra à medida que o dia transcorria”.


Trabalhando no Sul de Minas Gerais, longe da tutela dos paisagistas ancorados na administração pública das capitais, o artista teve a liberdade necessária para criar enredos naturais interagidos com formas modernas, deixando assinatura nas principais peças do seu acervo. Em Caxambu, no Parque das Águas, gravou seu nome por extenso na argamassa e abaixo dele imprimiu a data em que os trabalhos foram concluídos na cidade. Em Carmo de Minas e Itajubá, registrou F.S.Reis, abreviando o prenome. Mestre das foram assimétricas e do movimento, o que teria levado o artista a servir-se da letra de forma entre duas linhas simulando pautas? Acostumado com a complexa linguagem da natureza, onde linhas curvas nutrem e retalham os espaços, qual a razão da letra de forma numa caligrafia forçada, onde o risco das pautas é aparente? O desejo ingênuo de simular a folha de um caderno seria a submissao ao inequívoco prestígio que a sociedade legou à escrita sobre os outros registros encontrados na natureza? Assim, sua assinatura é o único traço regular e simétrico no mundo das formas contorcidas.


Também identificam suas obras alguns símbolos discretamente dispostos nas modelagens: rosas, pequenos ramos com tres folhas lanceoladas e galhas comuns às árvores. As assinaturas traduziam a consciencia do cascateiro emergindo de uma arte anônima e transformando-a num revigorante recamo de formas vegetais.


Entretando, os embelezamentos que ilustravam os espaços públicos e a intimidade dos jardins conheceram, no decurso do tempo, o abandono. E tão implacável e irreversível foi o expurgo dessa arte e desses artistas que se dedicavam à construção de imitação da natureza, que o registro da profissão de cascateiro foi suprimido dos dicionários modernos. Em 1939, o Novíssimo Dicionário da Língua Portuguesa, organizado por Laudelino Freire, não registra o vocábulo cascateiro e os dicionários recentes apresentam cascateiro (cascata +eiro) como “aquele que diz ou escreve cascata”, isto é, cascateiro na acepção da pessoa que mente ou mantém “retórica, sem fatos, e geralmente longa” (FERREIRA,1999)


As informações sobre o seu paradeiro tornam-se imprecisas a partir de seu embarque nos vagões da Rede Sul-Mineira para outras localidades. Aos amigos e patrícios que deixava, só restavam as lembranças daquele trabalhador que contribuiu para a inserção de muitas cidades no glamour da belle époque, alumiando com argamassa as sobrecasacas e alimentando a imaginação das crianças com o envultamento das cascatas naturais.


A partir de 1940, essa escola de paisagismo, que floresceu na Europa durante o século XIX, estava sepultada juntamente com os seus principais mestres-de-obras.



Texto retirado de “Jardins esquecidos”- (A arte em argamassa na obras de Francisco da Silva Reis) de Estaquio Gorgonne/2004

Desenvolvido por Paulo Batista (Paulo Cascata)